CA inauguração das vitrines de natal das Lojas de Departamento (Les Grands Magasins) no inicio do mês de novembro lança oficialmente a temporada das festas de final de ano em Paris. Uma tradição muito aguardada na cidade todos os anos por crianças e adultos, não apenas entre Parisienses e Franceses que se deslocam de outras regiões para admira-las, mas igualmente por milhões de turistas e isto independente de qualquer orientação religiosa.

«Les Grands Magasins» foram um elemento essencial, não apenas ao que diz respeito às tradições natalinas que conhecemos hoje, mas também ao desenvolvimento de uma nova maneira de consumo e da historia da publicidade comercial. Foram vitrines da revolução industrial e estética, marcando para sempre a historia da cidade nos séculos XIX e XX. Com eles fazer compras se transformou em lazer, até então reduzido às festas de família e algumas idas ao teatro. Permitiu, sobretudo o acesso a todas as classes sociais, dando a Paris o titulo de capital mundial de lojas do gênero.

Um pouco de historia…

Em Paris tudo começou com o Le Bon Marché em 1852 com Aristides Bocicaut, considerado por muitos o primeiro no mundo a construir um imóvel destinado a este tipo de comercio. Ele estabeleceu novos standards de venda, na recepção do publico, e sobretudo passou à oferecer todo o tipo de mercadorias por um preço fixo, do mais simples aos mais luxuosos de maneira a servir todo o tipo de clientela. Pela primeira vez o consumidor tem a oportunidade de examinar o produto, manipula-lo sem alguma obrigação de compra, introduzindo a noção de compra por prazer!

O grande volume de vendas gerado por uma frequentação cada vez maior permite uma grande negociação dos preços. A chegada de produtos para o verão, inverno e brinquedos para o Natal são colocados em evidência, como eventos promovidos especialmente para a ocasião. Assim um calendário anual é estabelecido. O serviço de entrega a domicilio e a venda a distância são criados.

Aristides Bocicaut cria a liquidação («Les Soldes») com o objetivo de aumentar a frequentação. Ela é focalizada em certos produtos como roupa de cama, toalhas e outros, chamada de «La semaine du Blanc» copiada hoje por todas as lojas da cidade, assim como as coleções de moda do verão e inverno, permitindo a renovação dos estoques para a estação seguinte.

Apos a fundação do Le Bon Marché outros seguiram como Les Grands Magasins du Louvre, fechado em 1974, hoje local dos Antiquários do Louvre (os dois maiores na época), Le Bazar de l’Hotel de Ville (no bairro do Marais em frente à prefeitura de Paris), Le Printemps (ao lado da Galeries Lafayette), La Samaritaine (hoje fechada, e fazendo parte de uma grande operação imobiliária com a abertura de hotéis, lojas, restaurantes em um futuro próximo). E finalmente (a mais popular entre turistas e franceses atualmente) Les Galeries Lafayette em 1895.

Se o Le Bon Marché iniciou suas atividades com o intuito de atrair a população de operários no século XIX, hoje a frequentação mudou. A loja foi comprada pelo grupo LVMH  (que inclui a famosa Louis Vuitton), apos sua frequentação entrar em declínio. O grupo definiu como estratégia transforma-la na loja mais requintada da cidade com uma grande oferta de produtos exclusivos negociados com grandes marcas em todo o mundo. Eles sao igualmente propriétarios da La grande Epicerie, o paraíso da gastronomia na cidade reunindo produtos das melhores marcas do país e internacionais, com inumeros restaurantes.

 

A Arquitetura…

Todas as lojas sofreram modificações ao longo do tempo. Prédios anexados proporcionalmente ao crescimento dos negócios, outros foram vitimas de incêndios e reconstruídos em diferentes estilos. Mas todas elas têm em comum o fato de serem instaladas nos grandes eixos das grandes avenidas da cidade, «Les Grands Boulevards» (as avenidas mais largas da cidade) ou «Avenues». As regras de Urbanismo da época, em vigor igualmente nos dias de hoje, determinam que a altura dos prédios seja calculada em função da largura das ruas em que são construídos. O átrio central é um espaço comum entre todas elas. Como na Galeries Lafayette com a sua grande cúpula de vidro de estilo «Art Nouveau» a 43 metros de altura. Porem o átrio mais famoso entre todos foi o da Printemps, infelizmente destruído anos mais tarde. Uma cúpula subsiste no restaurante da loja.

1- Le Bon Marché, 2- Les Grands Magasins du Louvre 3- Le Bazar de L’Hôtel de Ville, 4- Le Printemps, 5- La Samaritaine, 6- Les Galeries Lafayette.

Vitrines francesas, uma tradição centenária…

Se existe uma coisa que esperamos com muita curiosidade em novembro são os temas escolhidos em vitrines e arvores de natal espalhadas pelas lojas da cidade. Como uma espécie de consolação para o inverno que chega, espantando a «Grisaille» parisiense (o tempo frio e a falta de luz do sol), abrindo novas perspectivas com os preparativos das festas de fim de ano.

Esta tradição de vitrines articuladas é uma especialidade francesa. Foi iniciada em 1909 no Le Bon Marché, tendo escolhido como primeiro tema a historia da descoberta do Polo Norte. Anos mais tarde o Printemps faz também sua primeira vitrine, e estas lojas continuam fiéis à tradição até hoje.

As vitrines exigem meses de preparação. Em geral o inicio dos estudos acontece em Janeiro, assim que a decoração do ano precedente é desmontada. Para 12 meses de concepção as vitrines podem ser admiradas por apenas 6 semanas. Tudo começa no escritório de tendências da própria loja, onde o tema e historia são discutidos antes de serem oficialmente validados pela direção. Em seguida a equipe responsável pela identidade visual desenvolve os cenários, determinando cores, materiais, formas e a cenografia de todo o conjunto. Como em peças de teatro e cinema, um novo cenógrafo é escolhido todos os anos acompanhando todo o processo. Nomes conhecidos como o Philippe Découflé, que trabalhou igualmente para o Cirque du Soleil, fazem parte da lista. Estas etapas levam em torno de 4 meses. Em seguida os estudos técnicos começam para a criação da dinâmica e variedade de movimentos, dando vida aos quadros e principalmente aos heróis da historia. Uma trilha sonora é definida, e com o avanço da tecnologia, algumas vitrines oferecem a possibilidade de interagir com o publico, como por exemplo, aplicativos de telefone.

Elas funcionam das 7 da manhã à meia-noite, muito além do horário de abertura da loja, para evitar o aquecimento e em consequência a pane das maquinas. Todas as peças são desmontadas no atelier e levadas para as lojas onde serão montadas novamente em um prazo de 15 dias, em média.

Na origem da criação das primeiras vitrines o publico visado era unicamente infantil. Mas hoje em dia a frequentação mudou, incluindo adultos, entre eles muitos turistas. Em consequência as grandes marcas de luxo viraram grandes patrocinadoras das decorações. As grandes marcas como Dior, Chanel, Yves Saint Laurent, desenham o figurino dos personagens, os sapatos são da Louboutin ou Jimmy Choo, cristais da Swarovski e Baccarat nos bordados e decorações dos cenários, e os perfumes mais famosos estão presentes na maioria delas. Hoje as vitrines não só contam historias mas são igualmente uma demonstração da criatividade e luxo à Francesa, tanto admirado e cobiçado no mundo.

 

Este ano o tema escolhido na Galeries Lafayette faz eco à assinatura do tratado de meio ambiente assinado em Paris e, sobretudo à conscientização publica sobre as ameaças ao meio-ambiente. Obviamente o assunto é tratado com graciosidade e em forma de um conto infantil. Trata-se da epopeia de uma família de ursos brancos fragilizados pelo derretimento das geleiras no Polo Norte. Apos uma longa procura eles acham um novo paraíso para se instalarem, mas varias surpresas os esperam…

Vitrines articuladas na Galeries Lafayette.

No Printemps, Jules e Violette, personagens principais, são transportados em um sonho magico e levados ao coração da loja (https://fr-fr.facebook.com/a2f545e8-26ce-43f4-bdd3-9be4482e916a) que ganha vida no meio da noite, levando-os a fazer encontros inesperados… Esta aventura é representada em cinco vitrines que celebram o universo luxuoso da loja: perfumes, sapatos, cristais, gastronomia e a moda. Fui imediatamente transportada à aventura deles, no quadro em que Juliette chega na seção de sapatos. Minhas lembranças de criança em que minha mãe se aprontava para festas e eu me divertia em seu «paraíso» de calçados! Esta é a verdadeira magia das vitrines de natal, resgatar todas as nossas lembranças guardadas em nossos corações, mas que se apagam com o passar dos anos e as obrigações de uma vida de adulto. Este ano a inauguração foi feita na presença da atriz Uma Thurmam (https://youtu.be/wLd6JyEw6_I).

Decoração do interior e vitrines articuladas do Printemps.

No Le Bon Marche nos somos convidados a visitar uma cidade coberta de neve (https://www.facebook.com/b1e5e314-1253-4370-b45a-ee701ce9420c). A neve é materializada nas vitrines por personagens em forma de bolas que se divertem nos telhados da cidade. Um mundo encantado e infantil, mas que nos toca pela pureza e delicadeza. Por alguns instantes somos todos transportados à infância. A decoração interior é feita de guirlandas representando a neve que cai, mas o que eu mais gosto são as arvores decoradas com diversos temas, cujas decorações estão disponíveis para a venda nos servindo de inspiração em casa.

A mais famosa arvore de natal…

A arvore de natal mais esperada em Paris é certamente a da Galeries Lafayette. Todos os anos a montagem é uma grande peripécia técnica (https://m.youtube.com/watch?v=JByKLi3wrJ4) e a inauguração religiosamente esperada por todos. Uma cerimonia oficial é organizada com artistas ou personalidades e abre oficialmente a temporada de festividades na cidade (https://www.youtube.com/watch?v=6gOf_uxRRww).

Este ano o artista Lorenzo Papace, especialista do trabalho com papel em volume, criou uma arvore única e cheia de poesia. A arvore gigantesca, com roda gigante e teleférico fica no centro do átrio sob a centenária cúpula e acolhe os ursos polares a procura de um novo lar… A empresa Papetier Arjowiggins criada em 1770 foi responsável pela execução.Os «Les Grands Magasins» são parada obrigatória para os amantes de produtos de luxo, mas devem ser lembrados igualmente por serem testemunhas da historia da cidade.  Principalmente pela riqueza de detalhes, fruto do trabalho dos melhores artesãos da época.  A arte esta na moda mas igualmente no espaço que ela ocupa!